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As mulheres por trás dos grandes Químicos: Madame Lavoisier e Claudine Picardet | A Graça da Química
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Sobretudo em referência ao mundo dos negócios, é bem conhecida a máxima de que por trás de todo grande homem existe sempre uma grande mulher. No mundo da Química, dois casos notáveis, ambos na França do século XVIII, evidenciam que, no mudo da ciência, essa máxima também pode ser verdadeira. No presente capítulo, apresentam-se os resumos biográficos de Marie Anne Paulze-Lavoisier (Madame Lavoisier) e Claudine (Poulet) Picardet, destacando-se aspectos da vida pessoal de Madame Lavoisier e as similaridades entre ela e Claudine Paulet, no que diz respeito às suas atuações como grandes colaboradores de seus maridos e como representantes das Science ladies. Apresentam-se, ainda reflexões sobre o perfil emocional desejável aos praticantes das hard Sciences.

   Marie Anne Paulze-Lavoisier (1758-1836) casou-se com Antoine-Laurent Lavoisier em novembro de 1771 – aos 13 anos, portanto –, como forma de escapar ao assédio da Baronesa de la Garde, que queria coloca-la com seu irmão, o conde d’Amerval. Lavoisier casou-se com Marie Anne a pedido de seu pai, Jacques Paulze. Tal casamento “arranjado” terminou por mostrar-se uma união agradável e profícua para ambas as partes.

Logo após o casamento, Marie Anne interessou-se pelos trabalhos científico de Lavoisier, tornando-se hábil a ponto de participar dos trabalhos de laboratório. Contudo, sua contribuição à obra de Lavoisier não se restringiu meramente a uma atuação que, hoje, atribuiríamos a de um “técnico de laboratório”.

Profunda conhecedora de línguas, sobretudo inglês e latim, Marie Anne traduziu inúmeros trabalhos que foram de fundamental importância para os estudos, subsequentes de Lavoisier (que não era muito bom em línguas). Dentre as obras traduzidas, merecem destaques os livros de Richard Kirwan entitulados Essay on Phlogiston, e Strength of Acids and the Proportion of ingredientes in Neutral Salts. Na tradução do Essay on Phlogiston, Marie dá provas não apenas de dominar o inglês, o que talvez por si só não seja motivo de grande interesse, mas demonstra possuir sólidos e profundos conhecimento em Química, a ponto de acrescentar notas à tradução efetuada considerando, contudo, que elas não teriam “grande consequência”.

Alem de grande conhecedora de línguas, Marie estudou desenho com Luis David, tornando-se uma excelente desenhista e gravadora, produzindo a série de gravuras que aparecem no célebre Traité élementaire de chimie (Lavoisier, 1789).

Uma vez que os trabalhadores de Lavoisier foram publicados em seu nome, fica difícil avaliar-se até onde foi efetivamente a contribuição/influência de Madame Lavoisier para suas mais importantes teorias. Contudo, em função do conhecimento demonstrado por Marie e pela estreita e harmoniosa convivência do casal, é de supor que essa influência não tenha sido pequena.

Mulher dotada de encantos não apenas intelectuais mas também físicos, Madame Lavoisier e, mesmo antes, mantendo um caso por dez anos com P.S de Pont, amigo de Lavoisier: Casou-se, finalmente, em 1805 com Benjamin Thompson o Conde Rumford – fazendo, contudo, questão de manter o sobrenome Lavoisier –, separando-se em 1809, depois de um casamento extremamente infeliz por ambos.

Após a morte de Lavoisier, Marie não voltou a dedicar-se às suas atividades químicas, devotando seus últimos dias à pratica de trabalhos de caridade.

 Claudine (Poulet) Picardet

Claudine (Poule) Picardet (1735-1820) adquiriu seu segundo sobrenome ao casar-se com o general Picardet. Após a morte do general em 1796, Claudine casou-se em 1798 com célebre químico Louis Bernard Guyton de Morveau, contemporâneo de Lavoisier e adepto de sua teoria de combustão. Foi Guyton quem propôs um sistema de nomenclatura baseado na composição química das substâncias (sistema erroneamente, algumas vezes, atribuído a Lavoisier). Os sufixos ito e ato – e.g. sulfito de sódio, sulfato de cobre –, foram criação de seu sistema de nomenclatura.

Antes mesmo da morte do general, Claudine já atuava como assistente de Guyton, realizando atividades no laboratório. Similarmente a Madame Lavoisier, Claudine atuou como tradutora – italiano, alemão, sueco e inglês – de uma série de textos de grande importância para que Guyton e seus contemporâneos estivessem em sintonia com o que de melhor e mais inovador se fazia na química europeia. Kirwan, em carta endereçada a Guyton, comentou: “você é muito sortudo por ter tal dama traduzindo os artigos de M. Scheele. Considera-o incomparável”.

Madame Lavoisier e Claudine Pcardet: similaridades

As descobertas efetuadas no século XVIII promoveram definitivamente a transição da alquimia para a Química Moderna. Essa “revolução” foi efetivada através das contribuições de químicos de toda a Europa, mas, sobretudo da França, pelas mãos de homens como Berthollet, Fourcroy, Lavoisier e Guyton de Morveau.

Contudo, diferentemente do que se possa imaginar, essa revolução científica – verificada também para outras ciências, em diversas partes da Europa –, não representou qualquer tipo de avanço com relação à visão do espaço da mulher no mundo da ciência. Não é difícil entender-se o porquê de tão arraigada ideia de inferioridade intelectual da mulher em relação ao homem e sua consequente inaptidão para a prática das hard sciences, se lembramos que, em 1674 – para citar apenas um exemplo – o filósofo Nicholas de Malebranche conseguiu “explicar” a inferioridade intelectual da mulher com base na constituição de suas fibras cerebrais, dizendo serem elas mais fracas que as dos homens.

Marie Anne Paulze-Lavoisier e Claudine (Poulet) Picardet foram parte de uma época, exemplos (dois dos melhores, sem dúvida) da chamada Scientific lady, que floresceu sobretudo na França do século XVIII, sendo fruto  do chamado “salão literário”. Era nesses salões, durante os jantares e o subsequente convívio social, que as ladies podiam expandir seus conhecimentos. O salão constituía-se numa verdadeira universidade informal para a mulher, onde ela podia trocar ideias, expor seus conhecimentos e conviver com as grandes personalidades científicas e intelectuais da época.

Numa época em que a mulher ainda era vista como intelectualmente inferior ao homem, o salão era praticamente o único local onde as mulheres poderiam se instruir, uma vez que sua entrada era vedada nas chamadas “Academias”. Para ter-se uma ideia dessa realidade, basta sabermos que, até 1945, Margaret Cavendish, a duquesa de Newcastle, foi a única mulher admitida na Royal Society e, mesmo assim, mais em função de sua posição social do que por seu intelecto.

Marie e Claudine tinham, ainda, outra característica comum entre si e comum às “damas de salão”; eram mulheres sem filhos, dedicadas unicamente aos maridos e á vida intelectual. Contudo, supõe-se que, no caso de Marie e Lavoisier, a ausência de filhos possa ser explicada com base na baixa fertilidade exibida pelos membros de suas famílias, o que, provavelmente, os faria um casal, por herança genética, pouco fértil.

Considerações finais

Felizmente, já (?) se foi o dia em que as mulheres eram consideradas como pouco capazes para a prática das Ciências Exatas. Nos séculos XVII-XVIII, acreditava-se e acredita-se ainda hoje, infelizmente –, que a boa prática das ciências exatas só poderia ser efetuada por pessoas frias, racionais, calculistas e, portanto, a mulher, por sua personalidade naturalmente (?), dócil e sentimental, não poderia, com sucesso, dedicar-se á sua prática. Houve mesmo mulheres que, no intuito de penetrarem no “frio” mundo da intelectualidade masculina, abriram mão, orgulhosamente, de seu lado afetivo. Felizmente, já (?) se percebeu que hard deve ser o raciocínio, o trabalho intelectual – muito braçal – envolvido na prática da ciência, que pode ser muito bem (e talvez, até melhor) praticada por pessoas de alma e coração soft. Obrigado, Marie, Obrigado, Claudine.

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